Existe uma vantagem geopolítica que não se compra com dinheiro, não se conquista com exércitos e não se cria da noite para o dia. Ela é construída ao longo de séculos, moldada por história, idioma, migração, comércio e cultura compartilhada. A Espanha tem essa vantagem de forma ímpar. Situada na ponta sudoeste da Europa, a poucos quilômetros do continente africano e herdeira de um dos maiores impérios coloniais da história, o país ocupa uma posição que qualquer estrategista invejaria: consegue dialogar com a Europa desenvolvida, com a África emergente e com a América Latina em desenvolvimento, usando credenciais que nenhum outro país europeu possui no mesmo grau. Essa capacidade de ser ponte entre mundos diferentes é o maior ativo geopolítico espanhol do século XXI.
A relação com a África começa pelo simples fato geográfico de que o ponto mais meridional da Espanha está a apenas 14 quilômetros do Marrocos. Ceuta e Melilla, territórios espanhóis em solo africano, são a única fronteira terrestre entre a União Europeia e o continente africano. Isso transforma a Espanha num filtro obrigatório nas questões de migração, segurança fronteiriça e comércio com o norte e o oeste africano. Não por acaso, o governo espanhol lançou em 2025 sua Estratégia Espanha-África 2025-2028, um documento que define o continente africano como prioridade estratégica para investimentos, cooperação e parcerias energéticas. Com a África projetada para ser o continente mais populoso do mundo nas próximas décadas e detentor de recursos críticos para a transição energética, a Espanha quer consolidar sua posição como a porta de entrada europeia para esse mercado.
Mas é na relação com a América Latina que a influência espanhola atinge sua dimensão mais profunda. Mais de 480 milhões de pessoas falam espanhol no mundo, e a esmagadora maioria está nos 20 países latino-americanos onde o idioma é oficial. Esse vínculo linguístico não é apenas cultural, ele é econômico e político. As empresas espanholas investiram historicamente de forma intensa na região, com presença dominante em setores como telecomunicações, energia, bancos e infraestrutura. O volume de investimento espanhol acumulado na América Latina chega a 245 bilhões de euros, tornando a Espanha efetivamente a âncora econômica europeia na região. Quando a União Europeia quer conversar com a América Latina, precisa da Espanha. Quando a América Latina quer ser ouvida em Bruxelas, a Espanha é o canal mais eficiente.
A dimensão política desse papel de mediador ficou ainda mais evidente nos últimos anos. Em 2026, a Fundação Konrad Adenauer e outros centros de análise europeus publicaram relatórios reconhecendo explicitamente o eixo ibérico, formado por Espanha e Portugal, como a principal ponte estratégica entre a Europa e a América Latina numa ordem mundial em reconfiguração. A Organização dos Estados Ibero-Americanos reforçou esse argumento ao afirmar que Espanha e Portugal são os países europeus que de fato se preocupam e se movem pela América Latina, não apenas por solidariedade histórica, mas por interesse estratégico concreto. Esse posicionamento dá à Espanha uma voz diferenciada dentro da União Europeia, especialmente em debates sobre cooperação, segurança e acordos comerciais com o hemisfério ocidental.
Há também uma dimensão energética crescendo rapidamente nessa equação. A Espanha é um dos países europeus mais avançados em energia renovável, especialmente solar e eólica, e tem interesse direto em exportar tecnologia e infraestrutura energética tanto para África quanto para América Latina. Com o Marrocos e outros países africanos, já existem projetos de cabos submarinos para exportação de energia verde para o continente europeu passando pelo território espanhol. Com a América Latina, os laços entre empresas espanholas de energia e governos da região seguem sendo uma das principais linhas de influência do país. Quem controla a transição energética de um continente tem poder. E a Espanha está apostando todas as fichas nesse tabuleiro.
Essa capacidade espanhola de conectar mundos tão diferentes tem raízes históricas que remontam ao século XV, quando Portugal e Espanha dividiram o mundo entre si e moldaram civilizações inteiras. Para entender como esse passado ainda define o presente, como os impérios ibéricos construíram rotas, culturas e influências que persistem até hoje, o e-book Portugal Revelado é uma leitura essencial. Com 80 páginas ilustradas e linguagem acessível, ele reconstrói essa história desde os primeiros povos da Península Ibérica até o mundo contemporâneo. Vale muito a pena explorar essa origem comum que ainda move tanto da geopolítica atual.
