Existe uma certa tentação de responder essa pergunta de forma rápida, seja para dizer que os Estados Unidos continuam dominando tudo sem contest, seja para celebrar um suposto declínio americano que seria a virada definitiva da história. As duas respostas rápidas estão erradas. O que está acontecendo no mundo agora é mais interessante e mais complexo do que qualquer um dos dois extremos: os EUA seguem sendo a nação mais poderosa do planeta em praticamente todos os indicadores que importam, mas o mundo à volta deles parou de ser unipolar. Pela primeira vez em décadas, existem países com musculatura suficiente para dizer não a Washington e aguentar as consequências. Isso não significa que os EUA deixaram de mandar. Significa que mandar ficou mais caro e mais complicado.
A base econômica americana continua sendo sem paralelo. O PIB americano superou US$ 30 trilhões, respondendo por cerca de um quarto de toda a riqueza produzida no mundo inteiro. Para ter uma noção da escala disso, a China, segunda maior economia do planeta e principal desafiante dos EUA, fica em torno de US$ 18 trilhões. A diferença absoluta entre o primeiro e o segundo lugar ainda é de mais de dez trilhões de dólares por ano. Além do tamanho bruto, o dólar segue sendo a moeda de reserva global, o que dá aos americanos um privilégio que nenhum outro país tem: a capacidade de imprimir a moeda que o mundo inteiro precisa para fazer negócio. Wall Street ainda é o maior mercado financeiro da Terra e Apple, Microsoft, Google, Amazon e Nvidia somadas valem mais do que o PIB de muitos países desenvolvidos juntos.
No campo militar, a superioridade americana é de uma dimensão diferente de qualquer outra potência. O orçamento de defesa dos EUA é maior do que o dos próximos dez países combinados. A Marinha americana opera onze porta-aviões nucleares, enquanto nenhum outro país tem mais do que dois. A rede de bases militares espalhada por mais de 70 países do mundo não tem equivalente histórico nem contemporâneo. Em 2025, quando a China realizou um desfile militar em Pequim com 12 mil soldados e sistemas de armas de última geração, o evento foi lido pelo mundo como uma demonstração de aspiração. Impressionante, sem dúvida, mas ainda muito distante do que os EUA já operam no dia a dia. A força não está apenas no equipamento. Está em décadas de experiência operacional real, em alianças como a OTAN e em uma capacidade de projeção de poder que a China ainda está construindo.
Onde o debate fica genuinamente interessante é na dimensão da influência e da liderança. Os EUA do século XX construíram uma ordem global baseada em regras, instituições e em uma narrativa de valores que atraía aliados mesmo sem coerção. Essa capacidade de liderança por atração, o que os analistas chamam de “soft power”, foi talvez o maior ativo americano. Em 2026, esse ativo está mais desgastado. A polarização interna, o questionamento das próprias instituições democráticas, a postura mais transacional nas relações com aliados e a percepção de que os EUA agem por interesse próprio antes de qualquer princípio criaram espaço para que China, Rússia e outros atores ganhem influência em regiões que antes inclinavam automaticamente para Washington. O mundo não virou antiamericano, mas virou mais cético.
A história mostra que as grandes transformações no equilíbrio de poder raramente são lineares. Roma não caiu em um dia. A hegemonia britânica não acabou com uma única guerra. O que está em curso agora é uma transição lenta para um mundo onde os EUA seguem sendo o ator mais poderoso, mas onde essa superioridade precisa ser constantemente negociada, exercida e justificada. Para entender como esse tipo de disputa por poder se construiu ao longo dos séculos, como os impérios ascendem, dominam e cedem espaço para o próximo ciclo, o e-book Portugal Revelado oferece uma perspectiva única. São 80 páginas ilustradas que percorrem a história da Península Ibérica desde os primeiros povos até o presente, mostrando como um pequeno país moldou o mundo moderno e como as lógicas de poder que governam o século XXI têm raízes muito mais antigas do que imaginamos. Vale muito a leitura.
